DIA INTERNACIONAL DA MULHER - 8 DE MARÇO - É PRECISO DAR VOZ E ESCUTA A TODOS

Por Cláudia Magela Adelino, pscicóloga e acompanhante terapêutica. Gerente técnica do GAIA.

 

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em mulheres tem sido amplamente discutido e pesquisado, sendo a temática abordada, inclusive, pela Organização das Nações Unidas em 2018: “Empoderando Mulheres e Meninas com Autismo”.

Historicamente, temos o registro de maior incidência do TEA em meninos, o que justifica o uso da cor azul representando o transtorno. Atualmente, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, a diferença está na proporção de 4:1, ou seja, a cada 4 meninos com o diagnóstico de TEA temos 1 menina.

No entanto, a maior conscientização sobre o tema tem lançado luz à condição de subdiagnóstico entre as mulheres, principalmente nas com melhor desempenho dos processos cognitivos.

Os estudos teóricos e as práticas clínicas vêm indicando como os sintomas característicos do Espectro podem se manifestar de forma diferente nas meninas.

Há o apontamento de que a condição das mulheres, seja pela condição biológica, seja pelo contexto social, permite uma maior adaptação dos comportamentos ao contexto social.

Tal adaptação é denominada como camuflagem ou mascaramento e, dessa forma, os aspectos mais evidentes para o diagnóstico de TEA ficariam mais indefinidos. Há a possibilidade nesses casos, por exemplo, de evitar comportamentos repetitivos; fingir a interação em uma conversa; imitar comportamentos neurotípicos; direcionar os movimentos estereotipados a opções menos perceptíveis socialmente ou até mesmo a escolha de realiza-los em ambientes seguros. Além disso, os interesses restritos são referidos normalmente à personagens, celebridades, bonecas e animais, interesses comuns às demais meninas. Dessa forma, por essa maior indefinição e pelo lugar social das meninas, tais sintomas são muitas vezes traduzidos como infantilidade, timidez, ingenuidade ou mesmo como quadros de ansiedade e depressão.

No entanto, avaliando o contexto global nota-se, em alguns casos, as condições diagnósticas para o TEA, quais sejam, déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.

Assim, através dessa possibilidade de camuflar ou mascarar os aspectos mais evidentes, além da compreensão dos profissionais de que o Transtorno acomete, na maioria das vezes, o sexo masculino, muitas meninas não têm tido sua condição idealmente avaliada.

Essas questões trazem a tona uma discussão fundamental e a necessidade de aprofundarmos o olhar, tanto teórico quanto prático, para o autismo em mulheres.

A vivência sem nomeação adequada sobre o que se vive e a tentativa de se enquadrar em um padrão neurotípico vem sendo relatadas com imenso sofrimento e desgaste.

É preciso dar voz e escuta a todos do Espectro.

 

Referência Bibliográfica:

AUTISMO em mulheres: os custos da camuflagem do autismo. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. Disponível em: http://progene.ib.usp.br/autismo-em-mulheres-os-custos-da-camuflagem-do-autismo/.

Fernandes, Eliane Sousa de Oliveira. Avaliação cognitiva de crianças com TEA : teoria da mente, coerência central e compreensão de linguagem verbal / Eliane Sousa de Oliveira Fernandes . – Campinas, 2018. 151 p. Tese (Doutorado)

Maenner MJ, Shaw KA, Baio J, et al. Prevalence of Autism Spectrum Disorder Among Children Aged 8 Years — Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network, 11 Sites, United States, 2016. MMWR Surveill Summ 2020;69(No. SS-4):1–12. DOI: http://dx.doi.org/10.15585/mmwr.ss6904a1

Pereira, Anne Karolyne Mendes, and Virgínia Tiradentes Souto. "A cor do autismo e sua relevância na representação simbólica de mulheres." (2019): 1403-1411.

Todos os direitos reservados © 2021 GAIA